24 de abril de 2017

Sobre festejar a vida como as crianças de cinco anos

Crônicas

Tenho um amigo que diz não saber onde arranjo tanta empolgação para comemorar o meu aniversário (que foi sábado, dia 22). “Só você e as crianças de cinco anos esperam tantos dias para um bolinho, umas velas e parabéns. Nunca vi!”, ele brinca.

Sinceramente? Acho essa comparação de um elogio incrível. Por mais que 28 anos nos separem no calendário (e nos séculos! hahaha), as crianças de cinco anos e eu acabamos nos encontrando – radiantes – na difícil tarefa de festejar a vida apesar de.

festejar a vida - foto em que minha mão direita aparece segurando seis balões num céu azul claro

Apesar de não podermos fazer tudo o que queremos, de não termos ganhado o presente dos sonhos, de não termos todos os coleguinhas reunidos, de termos nos machucado na véspera, de termos ficado em casa quando a vontade era de viajar para um lugar extraordinário, de não termos um irmãozinho ou um dos pais por perto… Apesar de qualquer coisa que possa nos entristecer, no dia do nosso aniversário acontece uma verdadeira mágica: festejamos!

Festejamos um dia todinho nosso, as ligações, os paparicos, os abraços apertados, os presentes e, óbvio, o bolo com as velas e os parabéns!!! Alguém consegue mesmo ser feliz sem isso? Nunca vi!

Mas, ao longo dos anos, também aprendemos a festejar a vida exatamente como ela é. Cheia de alegrias e comemorações, mas também cheia de tropeços e novas tentativas que começam a acontecer com todos um pouco depois das cinco primaveras… Viver é isso.

Viver é vai e vem. É sobe e desce. É estica e puxa. É cair e levantar para a próxima. E que graça teria passar por tantas turbulências sem festejar a vida? Pedindo saúde, amor, paz, prosperidade, viagens inesquecíveis, abraços apertados, presentes dados com carinho…

Definitivamente, chego aos 33 no time das crianças de cinco anos. E o meu maior desejo, de verdade, é conseguir acompanhá-las com essa empolgação até o fim, que eu espero demorar muito pra chegar, claro.

Jéssica Vieira
Jéssica Vieira
09 de março de 2017

E se você tivesse que dizer quem é numa única foto?

Crônicas

Quarta-feira à tarde, cheguei do trabalho super cansada e resolvi tirar um breve cochilo no sofá. O que me parecia uma alternativa de descanso, no entanto, tem me deixado eufórica até agora. Eu sonhei que estava conversando com Deus. Sim, com Deus.

Era uma sala de espera e alguém me dizia que eu tinha uma hora para falar com ele. Mal criada, já fui logo dizendo que era muito pouco tempo, uma vez que eu tinha “muita coisa importante para resolver”. (Foi só um sonho, eu sei, mas até agora estou profundamente envergonhada de ter respondido dessa forma…).

“Neste momento, que tem que resolver coisas com você é ele”, disse a pessoa de cuja fisionomia não me recordo.

Gelei. E ainda gelo só de relembrar. Seria Deus querendo me avisar quando eu partiria dessa para (?) melhor? “Não quero saber. Não quero saber. Não quero sabeeeeer!”

Entro na sala. Não vejo ninguém, mas percebo que todas, TODAS,  as minhas fotos estão espalhadas numa mesa super gigante. De repente, ouço uma voz atrás de mim:  “Se você tivesse que dizer quem é numa única foto sua, qual delas escolheria?”

Não pensei duas vezes em escolher esta:

jessica vieira - deixemecontar

Junho de 1986 – eu, aos dois anos de idade

Nunca soube explicar, mas dentre todas as fotos da minha existência essa é a que me deixa mais feliz. É  a primeira que mostro quando alguém me pede para ver meu álbum de infância, sabe?

É para ela que olho quando estou triste, quando estou com saudade de algo ou quando estou muito, muito feliz. É ela que mais conversa comigo. É ela que me remete a uma felicidade genuína, com tão pouco. É para ela que olho quando penso, ainda que por um segundo, em desistir de algo. É ela que enche o meu dia de ternura e vontade de viver ainda mais. ♥

Ouvi uma risada fraternal e, logo em seguida, uma próxima pergunta. “Agora, mostre a foto que te traz uma lembrança inesquecível”.

Sorri sozinha e lhe mostrei a foto da primeira vez em que vi a neve:

valle nevado e farellones

Senti uma mão na minha cabeça e, por alguns segundos, um silêncio. Em seguida, “Você consegue enxergar que são duas fotos idênticas? Aconteça o que acontecer, é nelas que você precisa acreditar. Nelas.”

Acordei  e fiquei incrédula. Só conseguia pensar que havia sonhado com Deus. Sei que muita gente não acredita. Sei que “Freud explica”. Sei que pode ter sido um acúmulo de sensações do meu dia cheio. Sei que pode ter sido uma necessidade minha de verbalizar, em sonho, algo que tem mexido bastante comigo… Sei de tudo isso.

E sei também que o espaço entre as duas fotos nunca mudou a minha vontade genuína de realizar sonhos. É neles que eu verdadeiramente acredito. :)

E se você tivesse que dizer quem é numa única foto, qual ela seria?

Jéssica Vieira
Jéssica Vieira
16 de janeiro de 2017

Por favor, não feche a boca! – Um grito para subir na balança em paz

Crônicas

Sempre fui uma criança/adolescente/adulta magra. Sempre. Demorei 32 anos da minha vida para chegar aos 50 kg e, finalmente, sair do manequim 34 para o 36. Quem me conhece sabe que esses números nunca tiveram relação com dieta. Pelo contrário. Nunca me privei de uma massa ou um docinho sequer. Comer bem é algo que me deixa muito, muito feliz, obrigada!

Não engordando um grama sequer, não foram poucos os familiares e/ou conhecidos que me fizeram mil recomendações de remédios, suplementos e afins. Tudo para que eu “ganhasse uns quilinhos” e deixasse de ser “magra de ruim”.

Depois dos 30, naturalmente, ganhei dois. Agora, aos 50 kg, estou apta a doar sangue e, pasmem, apta também a ser pauta de uma loucura chamada cobrança pelo emagrecimento porque “depois dos 50 kg, nunca mais você voltará a ser como antes. Melhor fechar a boca porque já está ficando gordinha”

não feche a boca

Foi o que ouvi, incrédula, de uma colega há umas duas semanas e foi o momento exato em que – ainda que minimamente – comecei  a entender o sofrimento e a revolta de muitas meninas que, por não se encaixarem num padrão de corpo absolutamente tortuoso de ser mantido (que é um manequim 38), são tratadas como negligentes pelos conhecidos e como extraterrestres no mundo da moda.

Digo que comecei a entender minimamente porque usando um manequim 34 e tendo uma lista decorada de uns dez remédios e suplementos para engordar, é óbvio que jamais conseguiria perceber isso. É uma questão de representatividade. Enquanto não se é minimamente cobrada por isso, todo grito de desespero é ouvido de longe, baixinho.

Cansei de ler e de ouvir relatos de colegas que enumeravam facilmente situações nas quais se sentiam impotentes diante das cobranças por um corpo de capa de revista. Por vezes, achei que fosse exagero, juro, mas era inocência. Eu as via tão lindas, cheias saúde e com tanta bagagem a oferecer para o mundo que ficava me perguntando quem era desocupado o suficiente para cobrar de alguém um guarda-roupa cheio de blusa tamanho P e calças tamanho 38. Até que achei a resposta.

As pessoas não estão preocupadas se o seu peso é uma questão de saúde ou de doença. Ninguém te sugere emagrecer por zelo, cuidado ou atenção. Se assim fosse, seriam as primeiras a te acompanharem ao médico, ao psicológo ou ao nutricionista. Na verdade, as pessoas querem que você seja o espelho das frustrações delas. Apenas isso.

Estão de mal com a vida e dizem que “você tem um rosto lindo, só precisava perder uns quilinhos”. Estão com o coração partido e dizem que “se você não se cuidar, vai perder o marido”. Estão desgostosas do trabalho e, na primeira oportunidade, soltam um “nossa, você precisa usar seu tempo livre para entrar numa academia”. As pessoas dizem, com convicção, que você está engordando porque não se cuida. Como se cuidar do corpo fosse, essencialmente, manter-se magro…

Até quando?

As pessoas querem que você engorde para ficar “no padrão” e querem que você emagreça quando alcançá-lo. As pessoas querem que você feche a boca não para parar de comer, mas para não questionar as inseguranças delas.

Então não pese as calorias das palavras, abra a boca! Para que a deixem subir na balança em paz, para que não lhe perguntem quanto você veste, para que não te repartam em duas, dizendo que você tem um rosto tão bonito e que só precisava emagrecer, para que não criem as regras para um corpo que é seu. Seu. E de mais ninguém.

O peso das insatisfações tem que doer as costas de quem as tem, pois o  manequim de quem é leve nunca pesa.

Jéssica Vieira
Jéssica Vieira